— Mais chá?
— Sim, por favor — respondeu o garoto.
— Senta um pouquinho, ficar em pé vai te cansar cedo ou tarde.
— É chá de quê? Ah… e sobre o que estávamos falando?
O velho sorri ligeiramente e engata:
— Não me lembro mais. Essa minha memória já não é mais a mesma. E também não faz diferença.
— Como não faz diferença? Era algo importante…
— E que diferença isso faz? Logo mais você também vai esquecer e acabará um velho moribundo, como eu, se lamuriando das coisas que ficou cavucando para encontrar e que descobriu não serem tudo que esperava. Não é melhor deixar as coisas correrem mais naturalmente ao invés de tentar modifíca-las o tempo todo?
— Ué, não acha que eu perderei muito mais se esperar que as coisas venham até mim ao invés de correr atrás delas?
O rapaz toma um gole de chá, se senta e se reencosta na poltrona bem acolchoada. Agora era como se a conversa tomasse ares mais leves, quando, na verdade, se mostrava cada vez mais e mais densa. Reparava na meia-luz que entrava pela janela e refletia na xícara de chá sobre a pequena mesa. Daonde olhava era engraçado ver as cores verdes do chá se espelhando sobre o mogno.
Conforme puxava a xícara para seu colo, viu o silêncio transparente que o velho senhor exaltava. Tomou fôlego e continuou:
— De que vale uma vida direcionada por rédeas guiadas por mãos invisíveis?
De subito os olhos do velho arregalaram-se, como se aquela verdade sagrada fosse incontestável, afinal, “como poderia ser diferente”?
— O senhor acha que está tudo escrito? Me diga: não poderia ser diferente se o senhor quisesse?
Gosto de estrelas: elas colocam-nos de volta nos nosso lugares.
Estão aí três estrelas, de três constelações visíveis agora no verão: Procyon (da constelação de Canis Minor), Betelgeuse (da constelação de Orion) e Sirius (da constelação de Canis Major). As três são as mais brilhantes da foto e formam uma pirâmide de ponta cabeça, com Sirius sendo a ponta de baixo, Procyon a da esquerda e Betelgeuse a alaranjada da direita.
Este verso abstrato que carrego no peito,
Cansado sem leito, frio, divinal.
É da alma alimento, do corpo o manto,
É um lúdico canto na luz do umbral.
Só assim eu encubro de forma rasteira,
Minha alma faceira e meu riso flamante.
Dou forma ao medo ao sonho e a loucura,
Ao mal que perdura e me faz sitiante.
Desnudo das chagas a fome tétrica.
Em oração métrica a vida me acena:
Para calar dos sepulcros o longe ruído,
Para secar o fluido que na alma envenena!
Em Nietzsche, a linguagem nasce de nossa necessidade de se comunicar; a consciência representa a superfície de nossa reflexão na qual pensamos saber o que queremos comunicar. Desse modo, somente o que é comum, medíocre e grosseiro é expressa na perspectiva da consciência, pois remete o sujeito ao rebanho. Com isso há uma desvalorizaçãoda identidade, perde-se o que há de individual e particular levando a perspectiva do homem como espécie.
Todo ato volitivo expressa o combate de forças diferenças. Há a oposição de dois tipos de Moral: a Moral dos Aristocráticos e a Moral dos Escravos; a avaliação de cada uma delas constroí sua questão do bem e do mal.
A moral do Nobre, do aristocrático se resume no dizer sim que surge de uma auto afirmação; busca-se o oposto para dizer sim. É aquele que, centrado em si, visa a interioridade e não precisa do outro para afirmar valores comuns – belo e verdadeiro.
A moral dos Escarvos, por sua vez, diz respeito de antemão o não; constituí uma negatividade originária. Na Genealogia da Moral, Nietzsche afirma que toda auto afirmação necessita de um estímulo exterior; as ações dos sujeitos a essa moral baseiam-se apenas em reações dos outros. Nos Escravos há uma transvaloração de valores, ou seja, há uma necessidade de dirigir-se para fora ao invés de voltar para si. Isto afirma o ressentimento.
Por isso, a ação moral dos Escravos é sempre uma reação; para ele o bom é o contrário da Moral Nobre, não se afirma, é compassivo, humilde e nega a si mesmo; o mal, por sua vez, é a ação que ataca, que afirma orgulhosamente o próprio eu. A moral dos Escravos necessita de estímulo externo para ser criadora. Não representa atividade porque nele predomina a passividade; é aquele que guarda ressentimento, e, portanto é o tipo fraco.
Há, assim, a distinção entre Senhores e Escravos, entre ação e reação, entre forte e fraco. O sujeito ressentido corresponde ao tipo fraco; o Escravo se apoia na vingança imaginária, esta que consiste na incapacidade de porduzir estímulo autêntico, é descarga espontânea; ele apenas reage pelo outro, age por descarga externa. Outra característica da Moral do Escravo – tipo fraco – é a necessidade de anestesiar uma experiência de sofrimento; o sujeito procura a causa de seu sofrimento, algum vivente no qual ele pode descarregar seus afetos. Há nele um bloqueio na descarga de afeto interior, ele não se liberta das experiências vividas, não afasta o sofrimento da consciência – esta que distingue a força da fraqueza.
O ressentimento da elaboração é processo reativo que retoma o sofrimento; busca-se um culpado para descarregar a afecção. O ressentido volta-se para o outro e não afirma o sim para si mesmo.
O tipo Aristocrático faz mensão ao tipo forte; por fazer exercício de sua capacidade de se efetivar, o sujeito se torna ativo e afirmativo e, por isso, é forte. Desse modo, está correto afirmarmos que os valores se criam como descarga espontânea de uma força. O tipo forte não precisa de algo que atue como estímulo externo. A partir da plenitude, ou excesso, de sua força, o tipo forte é criador; na explosão de sua efetividade a força valorativa cria a partir de si mesma.
Nós todos podemos ter momentos fortes e momentos fracos; a diferença entre eles se determina na instabilidade entre dominação e sujeição. O homem moderno é um artifício, um monstro; é assim porque busca seu aperfeiçoamento da consciência, busca no outro em vez de voltar para si mesmo.
Portanto, o tipo forte é aquele capaz de esquecer, não guarda ressentimento, se desvencilia das experiências negativas. Forte é aquele que assemelha mais sadiamente e esquece com mais facilidade. Com isso o ressentimento é imediatamente esgotado.
Eu não sei exatamente onde estou indo
Mas vou tentar ir ao reino, se eu puder
Porque isto faz me sentir como um homem
Quando eu enfiar a agulha na minha veia
E direi a você que as coisas não são mais as mesmas
Quando estou apressado em minha corrida
E sinto como se fosse filho de Jesus
E acho que eu simplesmente não sei
E acho que eu simplesmente não sei
Eu fiz a grande escolha
Vou tentar destruir minha vida
Porque quando o sangue começar a jorrar
Quando isto passar pelo meu pescoço
Quando eu estiver chegando perto da morte
E vocês não podem me ajudar, não vocês, caras
Nem vocês doces meninas com suas doces conversas
Você todos podem ir catar coquinhos
E acho que eu simplesmente não sei
E acho que eu simplesmente não sei
Eu queria ter nascido há mil anos atrás
Queria ter navegado pelos mares mais escuros
Em um grande barco à vela
Indo desta terra aqui para aquela
Em uma roupa de marinheiro e chapéu
Longe da metrópole
Onde um homem não pode se livrar
De todo o mal da cidade
E dele proprio, e daqueles a sua volta
Ah, e acho que eu simplesmente não sei
Ah, e acho que eu simplesmente não sei
Heroína, seja a minha morte
Heroína é minha esposa e minha vida
Porque um caminho na minha veia
Leva ao centro do meu cérebro
E então estarei melhor e morto
Porque, quando o beijo começa a se espalhar
Eu realmente não me preocupo
Com todos os babacas desta cidade
Nem com todos os políticos fazendo sons malucos
Nem com todo mundo maltratando todo mundo
Nem com todos os corpos mortos empilhados em montes
Porque, quando o beijo começa a correr
Eu realmente não me preocupo com mais nada
Ah, quando a heroína está no meu sangue
E este sangue está na minha cabeça
Cara, graças a Deus estou bem e morto
E graças ao seu Deus eu nem sei disso
E graças a Deus eu simplesmente nem me importo
Ah, e acho que eu siplesmente não sei
Visto que o mal é condicionado pelo próprio livre arbítrio do homem, implica num caminho (HODÓS) diferente daquele que traz a semelhança com o bem; portanto, o homem é a causa do próprio mal e corre o risco de perder a necessidade da graça.
O perdão e a graça estão na própria natureza (PHÍSIS) do homem, basta retomar o curso do livre arbítrio para o homem voltar ao HODÓS do bem.
Agostinho afirma que a condição humana é mutável, enquanto a PHÍSIS é imutável. A condição varia conforme variadas condições, o homem de hoje sabe o que é o bem e muitas vezes não o faz; para fazer o bem é necessário a graça.
No argumento do Pelágio, retoma-se a questão da salveção se dar unicamente por um único sujeito – o sujeito da ação. Desse modo, o amor pela salvação torna-se uma busca egoísta, a convicção de seguir o bem sem a participação do próximo coloca em xeque todos os aspectos sociais do homem.
Em Agostinho, o amor em si é o amor ao próximo, que é o amor em Deus. A perspectiva de desunião imposta pelo medo de perder aquilo que se deseja pode ser evitada na medida em que aquilo q se deseja corresponda com a carne e com a alma, ou seja, não há querer frustrado quando o desejo se torna efêmero de carne e da alma. A fuga do conflito é fazer com que o corpo, que antes era pura particulariadade, se una com outras partes.
Quando o sujeito se compreende na pluralidade, a divisão entre alma e corpo deixa de existir. Pelo amor, ao representarmos nossa carne, iremos nos tornar uno, pois quando a alma deseja o bem aprende a representar a coletividade, assim, o corpo vai se representar como parte de um corpo maior. A graça auxilia nessa transformação da particularidade para a parte de um todo, a partir da relação amorosa.
A partir da relação, dá-se a correção; a partir da graça surge o amor, que é o mais belo. Para ser agraciado o sujeito não deve fazer algo visando um retorno, mas, no próprio elemento da graça há algo que é misterioso no homem e o faz com que a busque. A graça se dá pelos bons atos, depois que há a perspectiva de união começasse as obras do amor, daí se é agraciado, pois somente depois que o amor existe começa a aparecer suas obras.
Daí segue-se o novo homem, a parte do todo; na manutenção de sua totalidade, seu amor é consumado por todos. Quando há a renúncia da particularidade há a graça; quando pensa-se como corpo maior, há a defesa desta graça, deste amor. Para que haja a renúncia desse sujeito particular, o amor deve justificar tal renúncia. Amplia-se a perspectiva de defesa da existência para o coletivo. A graça surge como um amor do sujeito para com ele mesmo implicando no amor do sujeito para com o todo, um amor unificado.
Ouve-se o chamado da graça quando se saí da particularidade da procura, pois, enquanto há o anseio pela graça que o sujeito almeja alcançar, essa procura fecha-o na particularidade.
Portanto, a graça está na saída da particularidade, no reconhecimento do amor pelo próximo, representando a possibilidade do amor nos outros, e depois em Deus. Durante a relação de totalidade, a graça se mantêm, não se perde; pois deseja-se unificando corpo e alma, pensa-se no coletivo, transferindo a perspectiva de amor para a totalidade.
Passeando por alguns sites aí, vi essa frase e pensei: o que eu faria se, a cada hora, por cinco ínfimos minutos, o tempo deixasse de correr contra nós?
Isso, creio eu, é um sonho pra muitos de nós — trabalhadores e estudantes noturnos — e faz bastante falta para nós.
EU? Eu acho que aproveitaria esses 5 minutos de folga pra sair de mim mesmo e desligar-me de mim mesmo.
…Esse é o preço que se paga por ser diferente e original…
Nota do Herém que se publicou da Theba em 6 de Ab, contra Baruch Espinosa
“Os senhores do Mahamad fazem saber a vossas mercês: como há dias que, tendo notícia das más opiniões de Baruch de Espinosa, procuraram por diferentes caminhos e promessas retirá-lo de seus maus caminhos; e que, não podendo remediá-lo, antes, pelo contrário, tendo a cada dia maiores notícias das horrendas heresias que praticava e ensinava, e das enormes obras que praticava; tendo disso muitas testemunhas fidedignas que depuseram e testemunharam tudo em presença de dito Espinosa, de que ficou convencido, o qual tendo tudo examinado em presença dos Senhores Hahamín, deliberaram com o seu parecer que dito Espinosa seja excomunhado e apartado de toda nação de Israel como atualmente o põe em herém, com o Herém seguinte: Com a sentença dos Anjos, com dito dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e o consentimento de todo este Kahal Kados, diante dos Santos Sepharin, estes, com seiscentos e treze parceiros que estão escritos neles, nós Excomunhamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinosa, como o herém que excomunhou Josué a Jericó, com a maldição que maldisse Elias aos moços, e com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar; não queira Adonai perdoar a ele, que então então semeie o furor de Adonai e seu zelo neste homem e caia nele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E vós, os apegados com Adonai, vosso Deus, sejais atento todos vós hoje. Advertindo que ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar com ele debaixo do mesmo teto, nem junto com ele a menos de quatro côvados (três palmos, isto é, 0,66m; cúbito), nem ler papel algum feito ou escrito por ele”.