Em dias de decepções e frutrações, nada melhor que um lugar calmo para apaziguar as tormentas da mente. Quem sabe uma praia?
O sol, a areia, o mar…
Olhar para as ondas tem um efeito catártico. O ir e vir é hipnótico. Uma coluna de água que se ergue, que se choca com o próprio mar do qual surgiu. Uma espuma branca que surge e, enquanto grita, percorre e empurra todas as outras ondas que já voltavam para o mar, jogando-as de volta a areia para, final e lentamente, morrer e ser tragada de volta. Olhando para as ondas vemos o começo, o meio e o fim de algo — o nascimento, a vida e a morte. E isso se dá em poucos segundos. É como ver uma vida inteira em poucos segundos…
O nascimento e a morte são simples. Não é aí que está a chave.
Certa hora chegamos ao fim do começo e ao começo do fim, quando o nascimento começa a morrer e a morte começa a nascer: o exato meio termo. A onda que se ergue para se chochar com o mar e criar a escuma que chega até a areia, é como a esperança que nasce de um impacto radiante; e a mesma onda que cansa de avançar sobre a praia e resolve recuar de volta para o mar é o desespero; mas por um momento a onda fica estática sobre a areia. Por um momento ela desiste de avançar mais para dentro da costa, ainda que se recuse veementemente a voltar para o mar. Essa é a chave… e essa chave é quase imperceptível…
Um momento antes e um momento depois: isso é o que separa o fim do começo do começo do fim. Antes, o sol brilha forte e incentiva. Depois, o brilho esmaece e, mesmo que continue o mesmo, parece encoberto por nuvens de tempestades. Antes, o vento levantava o mar e o empurrava para a praia. Depois o vento empurra o mar de volta para seu lugar, ainda que ele sempre soprasse na mesma direção. O que está subentendido aí é que o antes e o depois são, por um momento, a mesma coisa — o momento em que os dois convergem, o momento depois que a onda para de avançar e antes que ela comece a retroceder –, ainda que sejam sempre coisas diferentes. O fim do começo não é o começo do fim, mas, ainda sim, o é… e é isso que deve ser visto! Esse limiar entre o antes e o depois, entre o nascimento e a morte, entre esperança e desespero… esse é o segredo: a vida!
Pode não ser nada disso, mas quem sabe nesse momento o fim e o começo não sejam realmente a mesma coisa. E quem sabe não seja esse o segredo para salvaguardar as esperanças enquanto se vive desesperado, para se viver enquanto se nasce e morre: parar o tempo no momento em que a o antes e o depois convergem e segurá-lo lá o quanto for possível, mesmo que isso exige esforços extraordinários; porque antes desse momento nada existe por inteiro e depois dele o que existiu já está se esfacelando… e é por isso que é esse exato momento que importa………….

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