O tema do mal é útil e central na filosofia de Agostinho, quando solucionado irá ajudá-lo em sua conversão para o cristianismo. A problemática é: como um mundo regido por Deus pode ter alguma imperfeição, sofrimento e erro? Como que o criador – que é inteiramente bom – permitiu a presença do mal no mundo? Se Deus é onipotente, como explicar a imperfeição? Se for assim, Deus deixou de ter força sobre a bondade do homem?
Os poetas trágicos acreditavam que a resposta dos Maniqueístas era a mais plausível; eles afirmavam que Deus não era responsável pelo mal, pois Deus é bom e perfeito, e o mal não corresponde ao mesmo princípio (ARKHÉ) de perfeição de Deus. Por isso, para os Maniqueístas, há um princípio para o mal, diferente do princípio de Deus; esse segundo princípio – negativo – leva o homem ao mal.
Mas, aceita tal perspectiva, a de distintas ARKHÉS, nos remete ao questionamento dos pricípios, havendo uma implicação politeísta e uma limitaçao do poder de Deus para com a ARKHÉ do mal, asssim, o próprio poder de Deus acerca da diferença é interferida devido à ARKHÉ do mal, pois na medida em que se expressa alguma ARKHÉ, este implica numa perspectiva de eterno, então, haveria como supor duas ARKHÉS contrárias, ou, dois eternos.
A partir dessa afirmação dos Maniqueístas, Deus deixa de ser onipotente e de ser o princípio único, pois, se há providência de Deus terá, a partir da perspectiva do mal, outra providência concorrente à providência de Deus. Então, Ele não seria o criador. Além disso, a natureza (PHÍSIS) do mal nas pessoas, na perspectiva Maniqueísta, nasce juntamente com o sujeito. Desse modo, há um problema na conversão do sujeito para o bem, pois o homem nasce voltado para o mal, mais dificilmente escapará dessa ARKHÉ.
Agostinho critica tal visão – Maniqueísta – afirmando que o mal não tem estatuto de ARKHÉ, nem de PHÍSIS; pois, ninguém é substancialmente mal, o mal pode fazer parte da condição di indivíduo e não de sua natureza. Não há outra ARKHÉ além de Deuas, então é mais propenso o homem estar voltado, pois o bem provém de Deus, que é a ARKHÉ de todas as coisas. O indivíduo pode se condicionar a seguir o mal, mas o bem ainda faz parte de sua PHÍSIS.
O homem por mais bom que seja se torna semelhante a Deus, mas, somente no aspecto da bondade, pois o sujeito ainda possui a finitude, está que caracteriza o homem como privado da infinitude. Desse modo, o homem somente pode buscar a semelhança (AOAEQUATIO) se aproximando do bem; a verdade é o que nos assemelha ao bem, e o mal é o que nos dessemelha. O homem é dessemelhante a Deus devido sua privação do infinito; nesse aspecto o mal está na dessemelhança entre a natureza finita do homem e a infinita de Deus.
Deus não criou o homem com a dessemelhança, mas o homem é diferente porque se fosse semelhante não haveria margem para o distanciamento. A própria diferença que tornou possível o distanciamento. Tal distanciamento é eficaz para aproximar o homem ao bem, para fazê-lo reconhecer o universal e sair da particularidade. Assim, Deus só é responsável pelo positivo.
No tocante ao mal moral, sua causa é o próprio livre arbítrio, pois o sujeito se desvia do caminho (HÓDOS) natural, sái do caminho do bem, da verdade. Está na condição humana a propensão para o mal, mas, simplesmente admitir que a condição para o mal não é a própria PHÍSIS do homem, mas é fruto da escolha que o homem faz, dessa escolha pode prover o mal moral; com efeito, o sujeito se afasta de Deus.
Então, só depende do sujeito voltar para o caminho do bem. Devolvendo para si sua própria potência, ele escolhe o HODÓS; mas, mesmo que conheçamos ou pensemos o bem, não quer dizer que somos voltados para seguir o HODÓS do bem. Fazer o bem depende apenas do sujeito da ação.