Nietzsche – Tipo forte e Tipo fraco
Publicado por Daniel Baseggio em 30/10/2009
Em Nietzsche, a linguagem nasce de nossa necessidade de se comunicar; a consciência representa a superfície de nossa reflexão na qual pensamos saber o que queremos comunicar. Desse modo, somente o que é comum, medíocre e grosseiro é expressa na perspectiva da consciência, pois remete o sujeito ao rebanho. Com isso há uma desvalorizaçãoda identidade, perde-se o que há de individual e particular levando a perspectiva do homem como espécie.
Todo ato volitivo expressa o combate de forças diferenças. Há a oposição de dois tipos de Moral: a Moral dos Aristocráticos e a Moral dos Escravos; a avaliação de cada uma delas constroí sua questão do bem e do mal.
A moral do Nobre, do aristocrático se resume no dizer sim que surge de uma auto afirmação; busca-se o oposto para dizer sim. É aquele que, centrado em si, visa a interioridade e não precisa do outro para afirmar valores comuns – belo e verdadeiro.
A moral dos Escarvos, por sua vez, diz respeito de antemão o não; constituí uma negatividade originária. Na Genealogia da Moral, Nietzsche afirma que toda auto afirmação necessita de um estímulo exterior; as ações dos sujeitos a essa moral baseiam-se apenas em reações dos outros. Nos Escravos há uma transvaloração de valores, ou seja, há uma necessidade de dirigir-se para fora ao invés de voltar para si. Isto afirma o ressentimento.
Por isso, a ação moral dos Escravos é sempre uma reação; para ele o bom é o contrário da Moral Nobre, não se afirma, é compassivo, humilde e nega a si mesmo; o mal, por sua vez, é a ação que ataca, que afirma orgulhosamente o próprio eu. A moral dos Escravos necessita de estímulo externo para ser criadora. Não representa atividade porque nele predomina a passividade; é aquele que guarda ressentimento, e, portanto é o tipo fraco.
Há, assim, a distinção entre Senhores e Escravos, entre ação e reação, entre forte e fraco. O sujeito ressentido corresponde ao tipo fraco; o Escravo se apoia na vingança imaginária, esta que consiste na incapacidade de porduzir estímulo autêntico, é descarga espontânea; ele apenas reage pelo outro, age por descarga externa. Outra característica da Moral do Escravo – tipo fraco – é a necessidade de anestesiar uma experiência de sofrimento; o sujeito procura a causa de seu sofrimento, algum vivente no qual ele pode descarregar seus afetos. Há nele um bloqueio na descarga de afeto interior, ele não se liberta das experiências vividas, não afasta o sofrimento da consciência – esta que distingue a força da fraqueza.
O ressentimento da elaboração é processo reativo que retoma o sofrimento; busca-se um culpado para descarregar a afecção. O ressentido volta-se para o outro e não afirma o sim para si mesmo.
O tipo Aristocrático faz mensão ao tipo forte; por fazer exercício de sua capacidade de se efetivar, o sujeito se torna ativo e afirmativo e, por isso, é forte. Desse modo, está correto afirmarmos que os valores se criam como descarga espontânea de uma força. O tipo forte não precisa de algo que atue como estímulo externo. A partir da plenitude, ou excesso, de sua força, o tipo forte é criador; na explosão de sua efetividade a força valorativa cria a partir de si mesma.
Nós todos podemos ter momentos fortes e momentos fracos; a diferença entre eles se determina na instabilidade entre dominação e sujeição. O homem moderno é um artifício, um monstro; é assim porque busca seu aperfeiçoamento da consciência, busca no outro em vez de voltar para si mesmo.
Portanto, o tipo forte é aquele capaz de esquecer, não guarda ressentimento, se desvencilia das experiências negativas. Forte é aquele que assemelha mais sadiamente e esquece com mais facilidade. Com isso o ressentimento é imediatamente esgotado.


Giovanni disse
Eu passei por uma leitura sobre este assunto em Nietzsche ontem e hoje… Ao que me parece o homem forte é aquele que Zaratustra diz amar: o que vive como a sucumbir, o que nao reserva uma gota do espirito para si, etc. O homem que passa sobre a ponte atada entre o animal e o além-do-homem… Ao meu ver é isso, porque o homem forte ainda nao demonstra ser o além-do-homem.
danbaseggio disse
Muito pelo contrário meu caro, o homem forte ama o presente, volta para si a todo momento, já que o que nos leva ao próximo nos afasta de nossa própria particularidade e, portanto, de nossa idêntidade.
Nietzsche quer dizer que o homem que pensa voltado em si, que ama a si, é o tipo forte; é além-do-homem, na minha perspectiva, porque não necessita do outro nem de Deus.
Paulo Henrique disse
li uma carta de Nietzsche para a irmã dele nalgum lugar, ele dizia que sentia-se forte para produzir num novo livro, e que estava motivado por uma nova paixão. Não cara, o Outro ou a Outra são sempre necessários, aliás, só são se necessários!
danbaseggio disse
Quando eu falo do outro digo, na verdade, o outro enquanto condição de me afirmar. O outro, nessa doutrina enquanto condição de possibilidade do sujeito se projetar é sinal de fraqueza; porém, o outro enquanto força, ou melhor, Vontade de Potência que se manifesta num combate entre forças, visando uma auto superação, é essencial, porque a vida é combate de forças e, por esse lado, o outro é necessário. Mas, no sentido em que afirmo – que é o primeiro- não, o outro não nos engrandece!
Giovanni disse
O outro é justamente o contraposto que nos nega, ou seja ver no outro algo como a solução expressa não passa de uma “muleta” existencial, não é exercer a potência, mas negar a vida. Porém, aquele que vive sucumbindo exerce sua vontade. Porque justamente, ele não se deixa regrar-se pelos outros, pelos dogmas e imposições sociais, e quem vai contra isso, para os outros, sucumbe. Então sucumbir não é um meio, mas a ótica do outro para com o homem forte. Algo assim que me passou o que eu li sobre isso. Mas ainda estou lendo a Dialética e Contra-dialética, empiria, Dionisio X Apolo, Dionísio X Sócrates, Dionisio X Ariadne e Dionisio X Cristo. Conceitos interessantes.