
“Uma breve Resenha Sadiana”
“Ser quimérico e vão cujo nome apenas derramou mais sangue na face da terra do que jamais fará qualquer guerra política, por que não retornas ao nada de onde a louca esperança dos homens e seu ridículo temor infelizmente ousaram te arrancar?!”
(Sade. Diálogo entre um padre e um moribundo e outros diatribes e blasfêmias, Alain François e Contador Borges (trad.). São Paulo, Iluminuras, 2001, p.15.)
Nessa breve resenha pretendo discorrer sobre alguns assuntos abordados por Sade em sua grande obra prima, A Filosofia Na Alcova.Valendo-me também dos comentários de Eliane Robert Moraes, extraídos de sua tese de mestrado, posteriormente transformada em livro: Lições de Sade. Ensaios Sobre a Imaginação Libertina.
Falar sobre Sade é falar sobre o homem interior, sobre o homem natural, que vive nas profundezas de todo homem moral.
Sade é autor de uma “filosofia lúbrica” em pleno século XVIII, onde o homem era moldado pela moral e escravizado por um regime monarca-clerical; em prol da civilidade e dos bons costumes, sacrificava-se a natureza humana e construía-se uma moral supranaturalista. Onde todos viam virtude e amor, Sade via fraqueza e ignorância. Diante de tal visão filosófica, o conflito torna-se inevitável: Será possível moldar uma natureza indomável aos costumes artificiais setecentistas? Diante de tal impasse, Sade faz o inconcebível até então: desmembra a religião, as leis e os costumes do século XVIII; dogmas irrefutáveis ao consciente e, talvez, até ao inconsciente humano.
Em A Filosofia Na Alcova, logo no primeiro diálogo, os personagens sadianos Senhora de Saint-Ange e seu irmão Cavaleiro de Mirvel, demonstram todo o desprezo pela moral e pelos costumes, fazendo uma grande apologia ao desregramento sexual.
Diz a Senhora de Saint-Ange a seu irmão: “Para uma alma libertina é inútil querer se impor freios, os ardentes desejos logo os fazem em pedaços”.
Para Sade, o ser humano moral é um projeto quimérico, fruto de costumes quiméricos. Na figura do cínico Dolmacé, esteriótipo do próprio libertino sadiano, a ruptura com os costumes e a moral é ainda muito mais evidente, começando pela quebra da condição masculina austera; Dolmancé é um sujeito efeminado, dado à pederastia, entregue a todo tipo de vício sexual. Essa é a figura do educador da virtuosa Eugénie, esteriótipo da religiosidade e da moral, que futuramente será iniciada nos excessos da natureza humana, à mais variada gama de sensualidade vetada pela moral vigente. É por meio da teoria e da prática que se corrompe o ser virtuoso; a teoria corrompe a mente, a prática corrompe o corpo. Eis a pedagogia sadiana.
A ruptura com a religião é talvez ainda mais radical do que a ruptura com os costumes. A figura de Deus, principalmente a concepção cristã de Deus, é alvo de inúmeros deboches. Para Sade, o Deus onipotente cristão nada mais é do que a própria pusilâminidade. A figura do padre nada mais é do que a própria superstição e o principal culpado pela alienação do homem temente a Deus. A religião coroa a monarquia, os reis amordaçam e escravizam os homens. Para Sade, uma nação forte é uma nação construída por homens livres das virtudes quiméricas de um Deus fraco. Deus é sinônimo de submissão e submissão é sinônimo de escravidão.
A natureza, em Sade toma o lugar de Deus. A natureza é onipotência desprovida de divindade. Fazendo uso do argumento da inconstância da natureza, Sade liberta o homem dos deveres imutáveis para com os costumes sociais. O homem nasceu sozinho, assim sendo, ele nada tem a ver com reciprocidade religiosa-social. Todo dever é embuste, é simples desculpa para que a religião e a monarquia se fortaleçam, mas Deus é inexistente na filosofia sadiana, logo a religião e a monarquia perdem a validade. O homem é o deus do próprio homem; suas inclinações aos vícios, aos desregramentos sexuais e à crueldade para com o próximo nada mais são do que os efeitos de uma configuração particular e única que a natureza lhes imprimiu. Assim sendo, o homem é liberado de qualquer moral e inocentado de qualquer crime, já que ele nada mais fez do que seguir os impulsos da natureza imprimidos em seu coração.
“Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos…” É praticamente a chave de ouro que encerra A Filosofia Na Alcova.
A pergunta de Eugénie a Dolmancé: “Os costumes seriam verdadeiramente necessários no governo republicano?” É a deixa para tal discurso. O panfleto “franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos…” é a receita para a construção de uma republica forte, livre e feliz. Os libertinos revolucionários, embasados nos conceitos sadianos, substituem a graça pela justiça e o direito divino pela liberdade. O único despotismo na republica sadiana é a libertinagem. A calúnia, o roubo, os crimes da impureza e o assassinato serão virtudes do homem forte. A instituição da libertinagem, sob a proteção do governo, é o único modo de tornar os cidadãos livres.
Toda essa inversão de valores e costumes, certamente, só pode ser exercida em um mundo imaginário. Isso é facilmente constatado até mesmo nas posições sexuais recomendadas pelos personagens sadianos em suas orgias espetaculares. Nem mesmo a mais simples dessas posições seria concebível no mundo real. Talvez o que Sade deseja nesse emaranhado de sensualidade, desejo e crueldade é a revisão dos pré-conceitos humanos. O homem setecentista, obcecado pelas luzes de seu século, esquece da natureza humana e torna o homem uma máquina cheia de engrenagens. O rompimento com a sua época é o que distancia a obra de Sade das grandes livrarias e bibliotecas, consequentemente, do público. Somente depois da moral nietzschiana e seu impacto na sociedade, o pensamento materialista vigoroso sadiano passou a ser reavaliado e reconhecido como pensamento filosófico válido. Sade talvez seja o pai do homem livre, homem este que só diz respeito a seus próprios desejos e limites.