Pensamentos em Palavras

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Amor e Morte

Posted by Rafa de Souza em 03/07/2009

Meu primeiro conto. Espero que seja aproveitável.

O corpo curvado, dobrando-se sobre os cotovelos; as mãos embrenhadas no cabelo; a boca seca, de desespero; os olhos banhados em lágrimas, que correm sem parar pelo rosto: eis a imagem de um condenado à morte, de alguém que deseja se entregar a ela.

A boca ainda conserva o sabor do beijo e os dedos ainda conservam a sensação do cabelo dela. Os olhos ainda preservam aceso o fogo que ardia e o coração ainda bate acelerado por ela, e, apesar disso tudo, chora. Aquele amor tão doentio: estar dentro do outro, sentir, chorar, rir, sofrer como se fosse ele; e, ainda sim, não estar nele. É sôfrego. O arrebatamento pela sensação de incompletude, misturada com a dor das incompreensões,  são capazes de tirar um homem do sério. São capazes de levá-lo a direcionar a morte para dentro da própria boca e convidá-la a fazer parte de sua vida. E, para este homem, será só ela que importará.

Algumas palavras rabiscadas sobre uma folha de papel, ou diretamente na madeira da escrivaninha, que suporta um cinzeiro, um maço de cigarros e um isqueiro Zippo, juntamente com uma garrafa de conhaque – ou qualquer portal para a embriaguez.

Rabiscado em algumas páginas estão as palavras de amor, ódio, alegria e sofrimento. É mórbido e é sórdido: “por que não me ama tanto quanto te amo? Por que insiste em deixar isso tão claro?”. E um pouco mais abaixo, na mesma página, um adeus, escrito por uma mão evidentemente trêmula e resignada. O que é isso? Por que alguém fugiria da vida por um amor?

Ninguém se importará. As putas das ruas abaixo, os velinhos do andar de baixo ou as filhas da vizinha do andar de cima não se importarão. Ninguém além dele próprio se importa. Talvez por isso, para ele, o beijo tivesse tanto sabor, ou os olhos ardessem como brasa; ao mesmo tempo em que, para ela, o mesmo beijo fosse sem gosto e os olhos exibissem só os restos de um fogo extinto. É também por isso que aquela arma é tão convidativa e sedutora, ou que o veneno tenha um odor tão libertador e um gosto para se saborear. Muitas pessoas sabem disso: Werther sabe disso, Pensaroso sabe disso e ele sabia disso. E é por isso que, no dia seguinte, um revolver, uma poça de sangue e um cadáver completavam a cena daquela alcova, junto com o maço de cigarros e uma bebida qualquer.

Ele pensava que uma vida que se esvai aos poucos muitas vezes é mais bem aproveitada se for ceifada de uma só vez. Mas agora não pensa mais, não sente mais, não ama mais: é só um cadáver que completa uma cena triste e em um quarto pequeno, com cheiro de cigarro, bebida e sangue.

Renato Gonçalves Toso, 03/07/2009

3 Respostas to “Amor e Morte”

  1. rod said

    tambem quero morrer, a ponte me parec doloroso, nao tenho acesso a quimicos eficazes, Quero ajuda

  2. rod said

    tambem desejo morer, so falta como, sem dor

    • Tente puxar um gatilho contra a cabeça; acredite, não irá doer.
      Tente morrer todos os dias, suicide seus conceito e renasça como uma fênix.
      Se conseguir, morrerá sem dor!

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