Pensamentos em Palavras

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A tempestade

Posted by Rafa de Souza em 27/07/2009

Um vento sopra nas janelas — dias de tempestade sempre trazem nuvens escuras e ventos cortantes. Mas num quarto fechado e com pouca luz não é a tempestade que atormenta.

O corpo jaz morto enquanto a mente, viva, se espalha. Isso não condiz com a sanidade.

Se tuas pernas se recusam a se mover, se tuas mãos se recusam a se movimentar, então como poderá ele sair dessa letargia? A mão só suporta o cigarro, nem mesmo a vontade de levá-lo a boca existe.

Vive um conflito — um conflito de forças ocultas. Como dois buracos negros, que dançam um com o outro sem nunca se sobreporem ou se ofuscarem, sua consciência conflita com ela mesma. Não são um só, mas deveriam — seria tão mais fácil assim. Uma dança eterna na qual as faces se alternam: bailam indiscriminadamente e de modo tão próximo! de modo que, aos que observam de longe, tudo parece uma única coisa, uma única face. Mas o semblante, tingido de cores claras, apresenta uma tranqüilidade inexistente. Nesse ritual sua mente se autodestrói, se consome por inteira, tornando o corpo inerte. É uma guerra que terá conseqüências aterrorizantes: a explosão sempre acaba por estilhaçar também o recipiente.

Todas essas questões o imobilizam.  O olhar, antes vivo, agora aparenta ser somente uma foto — resquícios de algo que já se perdeu. O sorriso que se apresentava o tempo todo, agora inexiste. As mãos sempre próximas aos olhos, escondendo o rosto. Os lábios sempre secos e a voz sempre trêmula.

“Por quê?” e “o quê?!” é o que sua mente se pergunta a si mesma. “Por quê!?”, “Por que não consigo?” são perguntas banais, mas que exprimem a pior das angústias. Mas não são todos os olhos que revelam os conflitos da alma.

Ele quer gritar, mas a voz não sai — qualquer grito, por mais ensurdecedor que fosse não faria jus ao que ele sente.

Ele quer chorar, mas seus olhos estão secos. Choraria lágrimas invisíveis.

A vontade de tossir uma fumaça inexistente e a ânsia de vomitar tudo, mesmo seu estômago estando vazio, e seu peito limpo, não o abandonam.

Levanta os olhos e vê sua imagem refletida no espelho, ao lado da cama onde está sentado. Suas feições são calmas, tranqüilas. Se por um momento sua mente escapasse de seu corpo tudo se estilhaçaria. O espelho, o quadro, a TV, tudo! Nos olhos do espelho vê o próprio caos: conflitos, estouros, explosões, coisas sendo lançadas, e puxadas até sumirem. Mas o véu de seus olhos negros encobre esse caos, que só é revelado pelo reflexo de um homem diante de sua própria imagem. Por um momento vê sua imagem estilhaçada no espelho e todos seus demônios, antes mínimos, tomam proporções gigantescas; mas ele continua algemado, refém de seu próprio inferno. Está inteiro por fora, despedaçado por dentro.

Seus olhos secos deveriam jorrar! e sua voz deveria sair garganta a fora!, a tosse deveria expulsar a fumaça e o vômito deveria retirar toda a comida indigesta; mas não é isso que acontece… Os cacos do espelho não podem ser jogados fora para que o lugar se limpe e se construa outra coisa melhor. E isso é um absurdo! Não deveria ser assim… e ele sabe. E, por um instante — um único instante — os olhos ficam marejados, e a voz parece suficientemente alta.

Os olhos que fitavam o reflexo de um homem no espelho agora são tomados pelo caos que antes era refletido. Seu corpo se curva para se levantar novamente em um impulso brusco e estraçalhar sua imagem, libertando-o de suas algemas. As lágrimas brotam e a voz começa a sair. O caos que antes destruía tudo dentro do espelho agora é real. O quadro se despedaça, a TV é jogada no chão e todo o resto destruído. Suas lágrimas enfraquecem seus demônios e seus gritos os exorcizam. Todos vão, aos poucos, sendo atirados para fora dele, expulsos de si para o mundo. Com o tempo o caos da lugar, novamente, a ordem. Uma mente exausta é o que sobra.

O vento que sacudia as janelas cessou e a chuva cai mais fraca agora. A tempestade se foi: choveu junto com o caos encarcerado.

Renato T 27/07/2009

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