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O adolescente na Confissão – AGOSTINHO

Posted by Daniel Baseggio em 24/09/2009

 A interpretação feita da 6º aula sobre Agostinho – trata da curiosidade, do tédio, e da busca pelo caminho para a tranquilidade (ATARAXIA) via magnanimidade. Afirma que o jovem se mantêm na inquietude, afastando-se do caminho do divino, mas, a partir que deixa sua particularidade pela magnanimidade, volta no caminho correto.

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  O tédio (TAEDIUM) é próprio dos adolecentes, este sentimento advém juntamente com a inconstância. Essa falta de apreço pelas atividades pode implicar numa inatividade, que é consequência da inconstância.
  A falta de alma por aquilo que se têm implica no desanimo para com a própria existência, ou o fastio (FASTIDIO); o sujeito desanimado não se volta para sua existência, fica preso nas perspectivas passadas. A inconstância revela a mutabilidade e mudança constante na relação de amizade (PHILIA). Agostinho critica que esta inconstância, quando não sanada, pode se tornar uma perspectiva.

Quantas vezs, na adolescência, ardi em desejos de me satisfazer em prazeres infernais, ousando até entregar-me a vários tenebrosos amores!
(Confissões, II, I, §02).

  A inconstância existe devido a curiosidade, pois, dessa procura pelo novo muda-se a perspectiva daquilo que antes estava voltado; agora muda-se da antiga para aquilo que almeja alcançar. O curioso sempre foge de si mesmo, por fugir e não se achar, acaba encontrando o FASTIDIO. Tal curiosidade não leva o sujeito a procura de um caminho (HODOS) certo, pois com a inconstância, o sujeito curioso está na obscuridade do que deseja. Os achados do curioso são efêros, já o HODOS daquele que procura efetivar-se, trazer presente àquele que estava ausênte, é eterno.
  A perspectiva em questão do curioso, do jovem adolescente, é a inconstância; é temporal. E o que Agostinho visa é a perspectiva do eterno, do Uno, do efetivo; na perspectiva da calma, da constância, há a tranquilidade (ATARAXIA) e o silêncio (HESYKHIA).
  Não encontrando em si o Uno, no momento em que há desacordo devido à inconstância com aquilo encontrado, o adolescente foge. É assim, pois, na medida em qua há algum conflito, há uma desistência, uma falta de confiança no Uno dele próprio, uma falta de empenho próprio.
  Para que o Uno se faça presente é necessário dedicação, esforço e HESYKHIA. Portanto, para fazer presente aquele que estava ausente é necessário esforço para evitar a curiosidade; para que se evite a distração daquele HODOS que se efetivava. Para chegarmos na ATARAXIA é necessário tal esforço.

Por todos motivos e outros semelhantes, comete-se o pecado, porque, pela propensão imoderada para os bens inferiores, embora sejam bons, se abandonam outros melhores e mais elevados, ou seja, a Vós, meu Deus, à Vossa leu.
(Confissões, II, V, §02).

 O esforço é efetivado pela magnanimidade, quando concentrado a si mesmo correspondendo para o coletivo, assim, torna-se generoso (GENNAIOS) na medida em que se aproxima do Uno. A partir daí não se encontra mais conflitos,e , portanto, encontra-se a ATARAXIA. A magnanimidade não é ameaçada pelos conflitos, pois a magnanimidade é condição que está fora do tempo, assim como o Uno.
  Aquele que não conserva o amor sofre da inconstância, pois, uma vez que o GENNAIOS é o amor para com os outros, e o sujeito não efetiva sua magnanimidade, não efetiva seu amor. É implicado no FASTIDIO da relação com seus próprios atos.
  Os inconstântes vivem sem Ser, pois não tem relação com o Uno. Se viver é fazer parte com o eterno, não ficando preso no tempo, se libertando das perspectivas; o jovem adolescente inconstante não efetiva sua magnanimidade e, por isso, está preso na inconstância dos seus atos que geram um FASTIDIO pela sua existência.
  Se aproximar do divino é encontrar a doçura (HEDUS); somente quando se aproxima do ser. Nem todo o prazer se aproxima do HEDUS, a calma se aproxima, pois não é regida pelo tempo. Assim sndo, a perspectiva do eterno implica nas ações devido à saída da perspectiva particular juntamente com a efetivação da magnanimidade, o sujeito volta-se para o coletivo, volta-se para o eterno. O sujeito que se vê fora da perticularidade reconhece na PHILIA a perspectiva do eterno, uma vez que ele saí da inconstância.
  O fim do prazer é o desprazer; quando se acaba o prazer implica-se no desprazer. Mas, no tocante ao HEDUS, não há desprazer quando se acaba. É demasiadamente errado tomar aquilo que se vive somente como prazer, pois, na medida em que se toma tais perspectivas se adentra na particularidade.
  Portanto, o adolescente curioso, inconstante, foge devido aos conflitos, vive preso na sua particularidade, não efetiva sua magnanimidade nem reconhece o Uno com seu HEDUS. É fundamental voltar-se para o divino, pois com o HEDUS nunca haverá conflitos; uma vez que o sujeito deixa sua incosntância, sua curiosidade, saí do particular e reconhece o coletivo, volta para o HODOS divino, reconhece a relação do GENNAIOS com a PHILIA.

5 Respostas to “O adolescente na Confissão – AGOSTINHO”

  1. Paulo Henrique said

    pergunta pra você e para os sapatos do Renato, não dá para viver ambas as coisas, o momento mágico e a percepção de que a doçura não nos deixará? O estóico Marco Aurélio afirma nalgum lugar: o fato de Deus ouvir minhas preces não significa que devo perdir-lhe para que a garota queira dormir comigo, isso ele não vai fazer, mas eu posso pedir-lhe para ser sempre capaz de perceber a doçura da garota. Putz! o que isso quer dizer?

    • Pelo que entendi, a doçura depende do quanto você se coloca no caminho da caridade e da magnanimidade, assim, deixa-se de existir os conflitos nos quais causariam a inquietação.
      No tocante à pergunta, quando você faz uma prece, faz um diálogo com o divino e eterno; ao dialogar com o eterno me coloco numa posição atemporal. Deus, que está no atemporal, não irá atender aquilo que peço como particularidade, pois está inscrita na temporalidade de uma perspectiva minha. Mas, no caso de sempre perceber a doçura de outra pessoa, isso é capaz de fazer, pois, estando o sujeito no atemporal devido a sua magnanimidade – que o tirou da perspectiva individual levando-o para a perspectiva coletiva -, o sujeito é capaz de perceber a doçura, quanto passar a doçura, porque já está em conciliação com o caminho divino, em outras palavras, é generoso.

    • Renato T said

      Perguntei, mas meus sapatos não me responderam, Paulo…

      • Paulo Henrique said

        passei o dia estudando o que Platão diz sobre a amizade pelo semelhante e a hospitalidade ao dissemelhante, a última, como as relações passageiras mas que provocam mudanças importantes, é como me sinto participando desse blog sensacional dessa mulecada esperta e produtiva, como tem que ser, sinto-me hostitalizado, sem estar tão doente. Continuo achando que a fala do Renato é amiga da fala do Daniel, um sempre procurando, outro percebendo o horizonte ao longe… sim, caindo essas questões na prova, vocês estão bem, abraço.

      • Renato T said

        Fico feliz que se sinta bem vindo, pois é.

        PS: Essa prova será em dupla, então faça o favor de não me mandar pro outro lado da sala.🙂

        abraços.

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