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Crítica da Midgley à Natureza humana e a distinção entre homens e animais em Descartes

Posted by Daniel Baseggio em 02/12/2009

 

Ao conceber a natureza do homem como pensante, Descartes, conhecido pela célebre frase “penso, logo existo”, nos remete a uma distinção entre homens e animais. Na pressuposição de uma distinção substancial entre homem e animal a Razão é aquilo que se encontra em tal diferença. Midgley derruba tal afirmação colocando em xeque o racionalismo e acaba com o patamar de desigualdade entre homens e animais; entra nesse contexto afirmando que não há uma natureza humana diferente da animal; ela critica essa posição especísta adotada pelos filósofos passados afirmando a importância da etologia para entendermos mais nossas ações e comportamentos.
  Tal tema na atualidade não se mostra tamanhamente pertinente, pois ultimamente têm-se comparado alguns dentre vários hábitos de animais não-humanos e humanos. Sem dúvida, Midgley foi uma grande colaboradora na Filosofia Moral e apontar sua crítica à distinção hierárquica entre homens e animais implica num melhor entendimento da imporância etológica. Desse modo, devemos explicitar o quão é especísta a afirmação cartesiana.
  Descartes, filósofo do século XVII, tinha uma concepção de homem fundamentada pelo fator racional. Sua implicância com a racionalidade hierarquizava o homem e os animais não-humanos. Para ele, a natureza humana é pensante e tal atributo que é constuitente da alma humana; é o pensamento que nos diferencia dos animais, pois o corpo humano não é uma máquina, mas sim uma união do corpo físico com uma alma sensitiva. Os animais, para Descartes, pelo fato de não serem racionais, possuem apenas o corpo físico, no qual Descartes intitula que são apenas máquinas.

Pois, examinando as funções que, em virtude disso, podiam estar nesse corpo, encontrava exatamente todas as que podiam estar em nós sem que pensemos, nem por conseguinte que a nossa alma, ou seja, essa parte distinta do corpo cuja natureza, como já foi dito mais acima, é apenas a de pensar, para tal contribua, e que são todas as mesmas, o que permite dizer que os animais sem razão que, sendo dependentes do pensamento, são as únicas que  nos pertencem enquanto homens, ao passo que achava que todas em seguida, ao supor que Deus criara uma alma racional e que a juntara a esse corpo de uma certa maneira que descrevia.
(Descartes, IV, P.55.)

  Em Descartes a natureza humana é pensante; a afirmação “penso logo existo”  é derivada de uma auto afirmação que o sujeito faz depois de uma reflexão acerca de si mesmo. O animal não-humano possui as mesmas características fisiológicas que o humano, exceto o fator racional; para Descartes o fato dos animais não possuirem a consciência de si feita pela reflexão, ou seja, do fato de não possuírem o pensamento, nem a comunicação necessária para expressar seus desejos e suas aflições, são apenas máquinas que agem de acordo com suas necessidades biológicas.

Ora, por esses dois meios, pode-se também conhecer a diferença entre homens e animais. Pois é uma coisa bem notável que não haja homens tão embrutecidos e tão estúpidos, sem excetuar mesmo os insanos, que não sejam capazes de arranjar em conjunto diversas palavras, e de compô-las num discurso pelo qual façam entender seus pensamentos; e que, ao contrário, não exista outro animal, por mais perfeito e felizmente engendrado que possa ser que faça o mesmo.
(Descartes, IV, p.61).

  O racionalista francês não nega que os animais não possuam seus meio de se comunicarem entre si; mas, na verdade, os animais não-humanos não conseguem colocar em ordem seus pensamentos, não possuem meios para expressar suas vontades. Como Descartes afirma: “E isso não testemunha apenas que os animais possuem menos razão que o homem, mas que não possuem nenhuma razão” (idem.). Então, para ele, os animais não-humanos são tratados como se fossem apenas máquinas compostas pelo corpo físico; enquanto o homem é topo de sua hierarquia, sendo composto pela união de uma alma – racional – com um corpo físico.
  Assim como muitos filósofos, Midgley criticou tal posição especísta que Descartes nos apresentou. Ela afirmou que a razão existe para a conservação do homem, assim como os chifres e as mandíbulas dos grandes felinos.

O homem, antes dos seus dias de uso de ferramentas, estava pobremente armado. Sem garras, bicos ou chifres, ele deve ter achado o assassinato uma tarefa entediante e exaustiva, e inibições embutidas contra este não foram necessárias para a sobrevivência. No momento em que ele inventou as armas, era muito tarde para alterar sua natureza. Ele se tornou uma besta perigosa.
(Midgley, II.)

  Desse modo, como afirma Midgley, o homem cria meios para se adequar e sobreviver ao meio; as armas, por exemplo, foram por ele criadas transformando-o no animal mais temido. Ora, na verdade tornou-o animal mais violento. A racionalidade que até então colocava o homem em um patamar hierárquico mais elevado não passa de um construto, assim como as armas; os animais não-humanos não necessitam disso para se adequar e se conservar no meio. A partir daí, a agressividade faz parte da natureza humana, e a racionalidade não coloca o homem num patamar acima dos animais não-humanos.

(…) a natureza e a cultura não são de todo opostas. Somos animais construidores de cultura naturalmente. Mas o que constuímos em nossas culturas deve satisfazer nosso padrão natural de motivações.
(idem.)

  Alem disso, Midgley deixa explícito que nossa diferença dos animais é, tão-somente, o fato de criarmos uma cultura para satisfazer nossa conservação, ou, ainda mais, para justificar nossas motivações, ou seja, nossos motivos, nossas razões para determinadas ações. A etologia, então, se torna de inteira importância, uma vez que não há hierarquia imposta pela racionalidade. O comportamento humano se difere dos animais não-humanos, o lobo nunca atacaria outro lobo até a morte; o homem, por sua vez, não hesita em puxar um gatilho para algum semelhante.
  Uma vez que os animais têm tantos meios de se adequar ao meio, não necessitam criar uma cultura, possuem uma natureza diferente da dos humanos; em nenhum aspecto são agressivos, atacam somente quando ameaçados ou quando vão defender seus semelhantes. A hierarquia cartesiana veio abaixo, pois os animais não são meras máquinas biológicas, seus hábitos podem ser facilmente percebidos por outro animal. A racionalidade não é mais um fator de engrandecimento do homem, quando delimitamos que a agressividade é parte da natureza humana, podemos até nos colocar como inferiores aos animais, pois, que tipo de animail que se auto denomina racional mata por prazer? Que animais seria mais violento do que o próprio homem?
  Midgley tem razão quando afirma que “comparações com elas (outras  espécies) têm sempre sido cruciais  para a nossa visão de nós mesmos” (Midgley, I.). Comparações com animais não-humanos sempre nos ajudarão a nos entendermos, uma vez que nossa racionalidade nunca nos engrandeceu; mas, muito pelo contrário, se sermos racionais nos trouxe até onde estamos – os únicos animais capazes de guerrear -, devemos reverter o especísmo que até agora utilizamos.
  Portanto, os animais não são máquinas irracionais, como queria afirmar Descartes, mas são um exemplo de que comparar seus comportamentos e hábitos poderiam nos fazer constituir uma cultura mais sólida, no sentido de sem agressividade. E, além disso, nos fariam dar o devido respeito a eles. Não somos mais evoluídos do que eles, precisamos deles para nos compreendermos mais adequadamente.

Por: Daniel T. Baseggio

Bibliografia: Descartes, R. Discurso sobre o Método. Trad.: J. Guinsburg e Bento Prado Junio, São Paulo, Editora Abril Cultural. Os Pensadores, 1979
                               Midgley, M. Beast and Man. Trad.: Regina A. Rebollo e J.H. Barone, EUA, Routledge, 2002.

 

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