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Sade e o homem – deus

Posted by Rafa de Souza em 24/01/2010

Sade e o homem – deus

“– Vai – diz ele, queimando- lhe o cérebro – vai levar noticias minhas ao outro mundo, vai dizer ao diabo que Dalville, o mais rico dos celerados da terra, é aquele que afronta mais insolentemente a mão do Céu e a sua.”
(Sade, D.A.F. Os infortúnios da virtude. Tradução, Celso Mauro Paciornik. São Paulo, Iluminuras, 2009.)
Não raramente a imagem de Sade é associada a um levante contra o trono divino, afinal, Sade é um dos maiores – senão o maior – representante do ateísmo em toda a história da filosofia. A pena do Marquês, sem duvida alguma, foi autora das principais sátiras contra as quimeras teísta e deísta. E basta um simples olhar sobre a história para perceber que a revolta de Sade contra as “metafísicas divinas” tinham realmente um cunho de necessidade e revolta.
Não se faz necessária uma grande empreitada para descobrirmos os porquês do ateísmo de Sade, basta apenas um olhar criticamente razoável pelo século de Espinosa e pelo século de Diderot e sua condutora “mão divina” para ratificarmos a radical fúria de Sade contra os obesos aproveitadores das abadias do velho mundo: carnificina, latrocínio e vandalismo contra as obras da humanidade, satanização do corpo, opressão às mulheres, alienação do homem; tudo isso é obra do corpo místico de Cristo: a santa mãe igreja.
Apesar de tudo, a obra sadiana revela uma imensa busca pela divinização, não a divinização de uma quimera – como fizeram os tonsurados medievais – mas a divinização do próprio homem. O homem em Sade, de certa maneira, ganha traços divinos e onipotentes, basta debruçar-se um pouco sobre a literatura sadiana para identificar semelhantes traços: Dolmancé , portador de traços finos e elegantes, gostos requintados, mente fria e calculista, enfim, todos os traços de um deus, mas um deus pagão; Duque de Blangis , seus traços são belos e robustos, seu porte é sobre humano, sua força é descomunal, um verdadeiro Hércules, não fosse uma pequena imperfeição – como todos os deuses pagãos – possuía uma covardia imensa. Sim, o estereótipo do divino sadiano de modo algum se assemelha ao deus da cristandade, mas sim aos deuses do Olimpo: os deuses do imperfeito.
Todos os heróis da literatura sadiana são figuras imponentes como deus, mas corruptíveis como o homem. Porque então há em Sade essa supremacia do paganismo sobre a religião dos peregrinos de Jerusalém? Seria Sade um novo profeta que deseja ressuscitar a velha religião dos pagãos? Devemos, portanto, esclarecer paulatinamente as idéias incendiárias sobre o divino e o humano concebidas pelo Marquês de Sade.
Em sua obra inaugural – Dialogo entre um padre e um moribundo e outras diatribes e blasfêmias – Sade retrata uma pequena, porém produtiva conversa entre um sacerdote ministerial da igreja de deus com um velho sectário do ateísmo materialista à beira da morte. É demasiado conhecida a fama da conversão às delicias do Céu no momento último da vida de um libertino – as promessas de vida eterna no paraíso ou nos tormentos do inferno são de fato sublimes e assustadoras respectivamente -. Mas para o herói moribundo de Sade, a filosofia escolástica é retrógrada e contrária às leis naturais à qual todo homem é escravo submetido: “Não se pode crer no que não se compreende. Entre a compreensão e a fé deve haver relações imediatas. A compreensão é o primeiro alimento da fé. Onde a compreensão falha, a fé está morta. Tudo o que ultrapassa os limites do espírito humano é quimera ou inutilidade .”
Ao contrário do que se pensava, a filosofia sadiana é a filosofia da escravidão, afinal tudo no universo, principalmente o homem – devido ao fator consciência – está subordinado e tiranizado pela natureza. O homem – rico ou desprovido – é aos olhos da natureza, simplesmente uma configuração, um aglomerado de matéria, que ao acaso foi gerado pelas mãos dessa “mãe comum”; aos olhos dela, a configuração humana, de modo algum, é mais cara ou barata que a configuração de um verme ou qualquer outra configuração. Portanto ao homem – segundo Sade – resta apenas “colher algumas flores sobre os espinhos da vida.” Porém, a subordinação humana à natureza, para Sade, não é motivo de fraqueza e depressão, e sim de sofrimento pela situação de limitação, pois as leis naturais não permitem muitas vezes a total efetivação da potencia dos desejos do homem: “… eu viajava; o universo inteiro não me parecia vasto o suficiente para abrigar a extensão de meus desejos; ele me apresentava limites: eu não os desejava.” O homem sadiano é um guerreiro que ama e odeia a natureza: ama-a, pois ela é indiferente ao sofrimento alheio; odeia-a, pois ela é a maior e mais cruel déspota do universo.
O homem sadiano, é a pedra angular de uma filosofia materialista rigorosa; o homem sadiano é um fim para o místico contemplado no velho mundo. Ora, o deus todo poderoso, aquele que divide as águas do mar vermelho, não é páreo para os deboches, para os escárnios freqüentes e ritmados dos heróis da literatura de Sade. Na alcova lúbrica de Madame de Saint-Ange quando o panfleto “franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos…” é recitado em alta voz pelo Cavaleiro de Mirvel , percebemos então o fim dos deveres de todos os cidadãos da república sonhada por Sade para com o deus doente dos aproveitadores judaico-cristãos. São evidentes os males que um deus que coroa os fracos e pune os fortes podem trazer a uma nação que sonha com a soberania. Um deus de semelhante caráter só pode levar uma nação de guerreiros – a França republicana de Sade – à pusilanimidade e destruição. É justamente por esse fato que os deuses da literatura sadiana são os antigos deuses pagãos greco-romanos, afinal esses deuses são o reflexo de povos grandiosos, conquistadores, impiedosos e cultos.
Embora fique clara a admiração de Sade pelos deuses da antiguidade clássica, é evidente que nosso “divino” marquês não deseja, de modo algum, um culto solene a nenhuma divindade, afinal a inserção de um culto em lugar de outro seria o mesmo que depor um rei para se submeter a outro, e, além disso, um deus – ainda que semelhante aos homens – não passa de uma quimera, porém a quimera greco-romana é infinitamente mais gloriosa e inspiradora que a quimera fraca e ressentida do povo escravo do deserto: um deus de escravos em nada inflama o coração de um povo sedento pelo poder; um deus de escravos serve apenas para consolar uma nação de escravos. Fica claro então que Sade usa os deuses da antiguidade apenas como modelo e padrão para os homens de uma nova e livre nação e não como novos altares onde o incenso a ser queimado é a própria felicidade do homem. Sade é a representação, por excelência, da ebulição e energia de um novo tipo de homem: o livre, o intenso e libertino “homem – deus.”

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