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Harbert Marcuse – Eros e Civilização

Posted by Daniel Baseggio em 03/11/2010

 Prefácio Político 1966

No Prefácio Político de 1966, Marcuse nos apresenta como objetivo o de aprender a utilizar os meios de comunicações das Instituições para moldar o mundo sem restrições aos Instintos Vitais de seus indivíduos. As pessoas acham que suprem suas carências no sistema de dominação que se perpetua; a própria tecnologia que deveria tornar a sociedade mais amena em sua luta pela existência, reprime o indivíduo transformando o seu meio, faz parecer que as diferenças sumiam graças a aparente satisfação de carências criadas por autoridades que não justificam seus fins – satisfazem a energia sexual e agressiva de seus súditos.

Aos que nascem dentro deste sistema de instituições que reprimem de um lado e procuram satisfazer do outro, pelo consumismo, tem que se acostumar aos requisitos desta realidade. A repressão instintiva reproduz este sistema de consumo, onde a atividade libidinal é voltada para uma satisfação imediata; as Instituições direcionam as considerações libidinais de seus indivíduos, e “podem ativar e satisfazer a agressividade na dimensão profunda do inconsciente”. O povo deveria se voltar contra, pois é manipulado pela repressão, possuem uma liberdade pressuposta em sua ignorância e sua própria impotência.

Um exemplo demonstrado nos anos 60 é a pressuposta liberdade sexual; de um lado havia a liberdade sexual – com os hippies e homossexuais – de outro o Vietnã e uma ilusão de produtividade; a mesma consideração pode ser feita pela liberdade sexual na época dos nazistas – havia-se uma aparente liberdade da sexualidade e a agressividade dos atos antihumanitários. Marcuse afirma que esta liberdade transforma a Terra num inferno; enquanto uma parte da civilização cresce, a parte menos afluente se torna passível de eliminação. Tais são eliminadas a que preço?

Os crimes contra a humanidade são feitos em nome de uma “liberdade”. Depois da escravidão fundou-se uma espécie de liberdade econômica em conjunto com a servidão voluntária ao trabalho; a servidão do homem tornou-se algo agradável, passou a se estabelecer uma reprodução da produtividade de repressão. Essa união de liberdade e repressão tornou-se “natural” para a civilização; há uma destruição daquilo que é interno e individual em prol de uma prosperidade como produto de consumo.

Uma inversão do rumo deste progresso está na libertação das necessidades instintivas do Eros “associal”. Com um novo ponto de vista há como evitar a continuidade deste Estado de satisfação aparente, modificando aquilo que causa repressão. A proposta de um novo progresso está na ativação das necessidades orgânicas do homem. No entanto, há uma espécie de utopia de liberdade que aparece sendo remota dentro de nosso contexto; o conflito é contido quando a massa participa dos benefícios que as Instituições promovem; até mesmo a oposição é, de certo modo, “contida”. A revolta dos países atrasados encontra sua realização frente aos países adiantados, acaba gerando uma revolta e uma repressão ao estrangeiro.

A revolta contra a própria repressão encontra seu objetivo na revolta do corpo como máquina; a máquina política, cultural e educacional são objetos da revolta por moldarem os gostos e reprimirem os instintos. Com a falsa impressão de desenvolvimento, e o surgimento da “agressão” dos mais fortes aos mais fracos, a capacidade de matar atinge grandes proporções e incita a uma sociedade de guerra – onde seus cidadãos não notam, mas suas vitimas percebem. A revolta das nações atrasadas irá tentar proporcionar a satisfação das necessidades vitais de seus indivíduos. As nações superdesenvolvidas, porém, se valem de condições ardilosas para perpetuar suas subordinações.

A Revolução que Marcuse cita deverá conter uma inversão da tendência de subordinação dos mais fracos aos mais fortes; além da rejeição à produtividade, poderá significar um estágio superior do desenvolvimento humano. Os Instintos Vitais serão responsáveis pela transformação da natureza.

O Estado beligerante aniquila os mais atrasados, são constituídos por sociedades mais ricas com interesses particulares e que se confrontam; utilizam da tecnologia como forma de repressão; a “agressão” provém da repressão dos instintos, pode gerar uma rebeldia social e uma revolta instintiva. Nesse estado a energia do corpo se volta para uma revolta contra aquele que reprime; a existência dos rebeldes com sua necessidade de libertação e contradição com as sociedades superdesenvolvidas se tornam algo plausível e admissível. Além disso, o papel do herói é glorificado por tal sociedade, cada vez mais “capacita” soldados em uma guerra fútil; para eles, o sacrifício do herói deve  ser imortalizado.

Não há progresso seguro com a ciência e o dinheiro; a agressão desta sociedade pode voltar-se contra o agressor, pois a primeira agressão incita uma cadeia de outras, tanto para aquele que agride como para aquele que é agredido. O Eros desta civilização dá comodidade apenas para aqueles que se submetes a repressão, perpetua a agressividade no sentido da agressão.

Em defesa da vida, Marcuse faz seu protesto contra as guerras criticando o recrutamento, a perpetuação pelos direitos civis e a negação da necessidade de marcas de grifes consumistas. Mas, como unir as esferas eróticas com as políticas? A critica deve transcender os protestos em prol de liberdade sexual (cartazes como: “MAKE LOVE, NOT WAR”): essa libertação esconde uma aparente satisfação, como ocorreu nos anos 60 em meio à guerra do Vietnã; deverá transcender também ao capitalismo sindicalizado, onde os trabalhadores mantêm e conservam o sistema de consumo, defendidos da estrutura social que mantém. Pode-se afirmar, com o caráter duvidoso do futuro, que as pessoas preferem aquilo que já acontece; a ordem estabelecida pelas instituições é forte e eficiente para justificar seus fins.

O controle de massa é efetivado pelo trabalho em tempo integral; o progresso técnico conserva a sociedade já estabelecida, faz suprimir as necessidades a partir do trabalho, a sociedade passa a ser edificada pelo trabalho. A necessidade social passa a se declinar para a mão de obra produtiva. Não há mais fonte de prazer no trabalho; o trabalhador passa a ser improdutivo em sua própria satisfação instintiva. Contra isto a criação de ocupações sem a repressão do trabalho deverá transcender a economia do mercado. O Governo sempre se prepara para as revoltas, organizando os desejos e anseios da população, administram a satisfação da comunidade.

A manifestação de Eros (tomado como prazer e satisfação) não é observada em meio ao sistema repressivo que as Instituições impõem; as finalidades instintivas são satisfeitas dentro do quadro comercial do consumismo. As pessoas dentro deste sistema negam seus instintos de Vida em sua manifestação erótica, a influência lucrativa reprime os instintos. Por um lado, o desenvolvimento econômico valida a ideia da abolição do trabalho – “vida como fim em si mesma” -, por outro lado, enquanto Inimigo interno e externo o desenvolvimento econômico é força propulsora para o “status quo”. O conflito não se dará dentro da esfera econômica, a esfera bélica e militar que protege também destrói. O sistema capitalista se efetiva sob crises econômicas fundamentadas em políticas arrasadoras.

A luta por Eros é uma luta política que se manifesta contra o trabalhismo, contra a mão de obra sindicalizada e do processo material. Trata-se de uma luta em prol dos Instintos de Vida, contra a repressão e contra a produtividade.

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