Pensamentos em Palavras

Só mais um blog na internet…

Dores, pesares e todo o mais…

Posted by Rafa de Souza em 21/03/2011

Acorporado

 

Era uma tarde cinza, fruto de uma manhã triste e igualmente cinza. Uma tarde após um dia de trabalho maçante e nada produtivo. Uma tarde cuja chorosa luz, por puro capricho, penava em seder seu lugar à noite de promessas frias e lancinantes.

Recebera, nessa mesma tarde, um telefonema nada confortável e sentiu-se ainda mais sufocado e oprimido naquela atmosfera densa:

 – Não venha. Preciso pensar.

Sempre temera frases curtas. Dessa vez o temor associou-se ao desespero. Acometido por uma terrível melancolia, escondeu-se em um cigarro intragável que empesteava o banheiro coletivo com uma fina neblina deprimente.

Lavou o rosto. Olhou-se no espelho. Notou-se mais velho. Lembrou-se da voz quase robótica ao telefone. Perdeu-se no tempo. Odiava ainda mais as frases curtas.

Voltou ao trabalho. Filósofo, esforçava-se quase ao infinito para lecionar. Lia Nietzsche – a tarde cinza vinha a calhar. Atrapalhou-se com as frases. Do além-do-homem restava-lhe muito pouco ou quase nada. De seus alunos ouviu uma ou duas frases rancorosas e sentiu-se pesadamente liberto: organizou seus livros, e sonoramente, passo após passo, foi-se da aula sem alarde e sem o “muito obrigado” já tradicional.

Sentou-se no carro como quem lança-se sobre um colchão. Sentia a tensão que ofuscava-lhe a dor. Movia-se com vagar. Trafegava como um ébrio, mas destinguia tudo ao seu redor – sabia o que era o outro, só não sabia o que era seu.

Quando a luz cinzenta da tarde entregou-se insolúvelmente ao negrume da noite vazia, chegou-se em seu sofá. Acompanhou-lhe a Vodka, já tão amiga. Lembrou-se da correspondência: algumas frases embaralhadas era tudo o que destinguia. Deixou-se estar. Forçou-lhe o sono. Pestanejou como quem luta contra um mal sem cura, mas sucumbiu ao fim.

Teve uma ou duas horas de sono confuso. Despertou-lhe, estridente, o telefone:

– Está tudo pensado. Vou-me embora de ti. Boa noite.

Calou a voz. Pensou em matar-se. Pensou em matar. Pensou…

            Programou seu relógio para as seis da manhã. Levantou-se, tomou um café sem data que amargalhou-lhe a língua. Ensaiou grande fúria, esboçou revolta. Trancou-se no mundo. Deu partida no carro. Sujeitou-se ao chefe. Deu bom dia à classe e abriu os silogismos de Ciorran na página sete.

Anos mais tarde deixou o niilismo. Lembrou-se da voz. Consolou-se com  Cristo – engoliu sua ira. Morreu de velhice.        

 

Rafael de Souza

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