Pensamentos em Palavras

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Archive for the ‘Crônicas’ Category

Diálogo com um moribundo.

Posted by Rafa de Souza em 07/11/2009

Diálogo com um moribundo.

— Mais chá?
— Sim, por favor — respondeu o garoto.
— Senta um pouquinho, ficar em pé vai te cansar cedo ou tarde.
— É chá de quê? Ah… e sobre o que estávamos falando?
O velho sorri ligeiramente e engata:
— Não me lembro mais. Essa minha memória já não é mais a mesma. E também não faz diferença.
— Como não faz diferença? Era algo importante…
— E que diferença isso faz? Logo mais você também vai esquecer e acabará um velho moribundo, como eu, se lamuriando das coisas que ficou cavucando para encontrar e que descobriu não serem tudo que esperava. Não é melhor deixar as coisas correrem mais naturalmente ao invés de tentar modifíca-las o tempo todo?
— Ué, não acha que eu perderei muito mais se esperar que as coisas venham até mim ao invés de correr atrás delas?
O rapaz toma um gole de chá, se senta e se reencosta na poltrona bem acolchoada. Agora era como se a conversa tomasse ares mais leves, quando, na verdade, se mostrava cada vez mais e mais densa. Reparava na meia-luz que entrava pela janela e refletia na xícara de chá sobre a pequena mesa. Daonde olhava era engraçado ver as cores verdes do chá se espelhando sobre o mogno.
Conforme puxava a xícara para seu colo, viu o silêncio transparente que o velho senhor exaltava. Tomou fôlego e continuou:
— De que vale uma vida direcionada por rédeas guiadas por mãos invisíveis?
De subito os olhos do velho arregalaram-se, como se aquela verdade sagrada fosse incontestável, afinal, “como poderia ser diferente”?
— O senhor acha que está tudo escrito? Me diga: não poderia ser diferente se o senhor quisesse?

 

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Amizade

Posted by Rafa de Souza em 05/07/2009

Na madrugada da sexta para o sábado estava deitado no colo de uma amiga enquanto conversávamos sobre diversos assuntos. Um deles foi frases que marcaram e poemas e uma das frases que ela me disse foi um pedaço de um texto de Vinícius de Moraes, que ela veio me mostrar ontem:

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.

Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor.

Eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências.

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. É delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí.

E me envergonho, porque essa minha prece é em síntese, dirigida ao meu bem estar.

Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer.

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que não desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

Autor: Vinícius de Moraes

Concordo com muito desse texto.

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