Pensamentos em Palavras

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Archive for the ‘Literatura’ Category

Eu não sou Chico, mas quero tentar…

Posted by Rafa de Souza em 19/09/2009

Um Dia No Morro

É dia de festa e apito no morro,
José Sem Socorro não pode faltar;
Subiu a ladeira tomando cachaça,
Maria Sem Graça pôs-se a chorar.

Ind’agora vi Juca Ligeiro;
Olhar traiçoeiro, inveja e paixão.
Ind’agora vi Juca Ligeiro
Com o sangue e a vida dum outro na mão.

Vez e outra Aurora Faceira,
Rumo à gafieira, se faz caminhar.
Vez e sempre, Aurora Faceira
Só pega seu rumo ao primeiro raiar.

Tem bola, tem pipa e fubeca;
Na certa tem cinta de couro na mão.
Mamãe vem raivosa, papai com decoro,
Vovó diz que a sova ajeita a razão.

Com lua na vista a menina arrisca
O seu bem-me-quer;
Com fogo nos olhos, saliva na língua,
O menino registra a mulher dum qualquer.

Tem samba no morro, tem samba no pé;
Será que Maria encontra José?
Tem choro no morro: “Sem Graça, o que é?”
“Foi Juca Ligeiro que matou meu José”.

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O Divino Marquês

Posted by Rafa de Souza em 01/08/2009

sade

“Uma breve Resenha Sadiana”

Ser quimérico e vão cujo nome apenas derramou mais sangue na face da terra do que jamais fará qualquer guerra política, por que não retornas ao nada de onde a louca esperança dos homens e seu ridículo temor infelizmente ousaram te arrancar?!”

(Sade. Diálogo entre um padre e um moribundo e outros diatribes e blasfêmias, Alain François e Contador Borges (trad.). São Paulo, Iluminuras, 2001, p.15.)

Nessa breve resenha pretendo discorrer sobre alguns assuntos abordados por Sade em sua grande obra prima, A Filosofia Na Alcova.Valendo-me também dos comentários de Eliane Robert Moraes, extraídos de sua tese de mestrado, posteriormente transformada em livro: Lições de Sade. Ensaios Sobre a Imaginação Libertina.

Falar sobre Sade é falar sobre o homem interior, sobre o homem natural, que vive nas profundezas de todo homem moral.

Sade é autor de uma “filosofia lúbrica” em pleno século XVIII, onde o homem era moldado pela moral e escravizado por um regime monarca-clerical; em prol da civilidade e dos bons costumes, sacrificava-se a natureza humana e construía-se uma moral supranaturalista. Onde todos viam virtude e amor, Sade via fraqueza e ignorância. Diante de tal visão filosófica, o conflito torna-se inevitável: Será possível moldar uma natureza indomável aos costumes artificiais setecentistas? Diante de tal impasse, Sade faz o inconcebível até então: desmembra a religião, as leis e os costumes do século XVIII; dogmas irrefutáveis ao consciente e, talvez, até ao inconsciente humano.

Em A Filosofia Na Alcova, logo no primeiro diálogo, os personagens sadianos Senhora de Saint-Ange e seu irmão Cavaleiro de Mirvel, demonstram todo o desprezo pela moral e pelos costumes, fazendo uma grande apologia ao desregramento sexual.

Diz a Senhora de Saint-Ange a seu irmão: “Para uma alma libertina é inútil querer se impor freios, os ardentes desejos logo os fazem em pedaços”.

Para Sade, o ser humano moral é um projeto quimérico, fruto de costumes quiméricos. Na figura do cínico Dolmacé, esteriótipo do próprio libertino sadiano, a ruptura com os costumes e a moral é ainda muito mais evidente, começando pela quebra da condição masculina austera; Dolmancé é um sujeito efeminado, dado à pederastia, entregue a todo tipo de vício sexual. Essa é a figura do educador da virtuosa Eugénie, esteriótipo da religiosidade e da moral, que futuramente será iniciada nos excessos da natureza humana, à mais variada gama de sensualidade vetada pela moral vigente. É por meio da teoria e da prática que se corrompe o ser virtuoso; a teoria corrompe a mente, a prática corrompe o corpo. Eis a pedagogia sadiana.

A ruptura com a religião é talvez ainda mais radical do que a ruptura com os costumes. A figura de Deus, principalmente a concepção cristã de Deus, é alvo de inúmeros deboches. Para Sade, o Deus onipotente cristão nada mais é do que a própria pusilâminidade. A figura do padre nada mais é do que a própria superstição e o principal culpado pela alienação do homem temente a Deus. A religião coroa a monarquia, os reis amordaçam e escravizam os homens. Para Sade, uma nação forte é uma nação construída por homens livres das virtudes quiméricas de um Deus fraco. Deus é sinônimo de submissão e submissão é sinônimo de escravidão.

A natureza, em Sade toma o lugar de Deus. A natureza é onipotência desprovida de divindade. Fazendo uso do argumento da inconstância da natureza, Sade liberta o homem dos deveres imutáveis para com os costumes sociais. O homem nasceu sozinho, assim sendo, ele nada tem a ver com reciprocidade religiosa-social. Todo dever é embuste, é simples desculpa para que a religião e a monarquia se fortaleçam, mas Deus é inexistente na filosofia sadiana, logo a religião e a monarquia perdem a validade. O homem é o deus do próprio homem; suas inclinações aos vícios, aos desregramentos sexuais e à crueldade para com o próximo nada mais são do que os efeitos de uma configuração particular e única que a natureza lhes imprimiu. Assim sendo, o homem é liberado de qualquer moral e inocentado de qualquer crime, já que ele nada mais fez do que seguir os impulsos da natureza imprimidos em seu coração.

“Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos…” É praticamente a chave de ouro que encerra A Filosofia Na Alcova.

A pergunta de Eugénie a Dolmancé: “Os costumes seriam verdadeiramente necessários no governo republicano?” É a deixa para tal discurso. O panfleto “franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos…” é a receita para a construção de uma republica forte, livre e feliz. Os libertinos revolucionários, embasados nos conceitos sadianos, substituem a graça pela justiça e o direito divino pela liberdade. O único despotismo na republica sadiana é a libertinagem. A calúnia, o roubo, os crimes da impureza e o assassinato serão virtudes do homem forte. A instituição da libertinagem, sob a proteção do governo, é o único modo de tornar os cidadãos livres.

Toda essa inversão de valores e costumes, certamente, só pode ser exercida em um mundo imaginário. Isso é facilmente constatado até mesmo nas posições sexuais recomendadas pelos personagens sadianos em suas orgias espetaculares. Nem mesmo a mais simples dessas posições seria concebível no mundo real. Talvez o que Sade deseja nesse emaranhado de sensualidade, desejo e crueldade é a revisão dos pré-conceitos humanos. O homem setecentista, obcecado pelas luzes de seu século, esquece da natureza humana e torna o homem uma máquina cheia de engrenagens. O rompimento com a sua época é o que distancia a obra de Sade das grandes livrarias e bibliotecas, consequentemente, do público. Somente depois da moral nietzschiana e seu impacto na sociedade, o pensamento materialista vigoroso sadiano passou a ser reavaliado e reconhecido como pensamento filosófico válido. Sade talvez seja o pai do homem livre, homem este que só diz respeito a seus próprios desejos e limites.

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O MISANTROPO – Molière (poesia de amor para o amor)

Posted by Daniel Baseggio em 08/07/2009

Molière

Molière

– folhando alguns livros em casa, me deparei com um antigo livro, o De natura rerum; em específico a passagem de O Misantropo  ocorre nas linhas 717-730, Ato II, seção IV; onde uma jovem, Eliante está censurando Alceste – o misantropo – por defender a honestidade absoluta.

A pálida ao jasmim na alvura é comparável;
A escura de assutar é morena adorável.
Tem flexibilidade e linha esbelta e magra;
Majestade em seu porte a gorda mais consagra;
A que a si não se cuida e no ar se desmazela,
Ao título faz jus de beldaed singela [beauté négligée];
Como uma deusa surge à vista que é gigante,
E a anã, da perfeição é abreviado galante;
O gênio da orgulhosa é digno de coroa;
A falsa é espirituosa; a burra é anjo de boa;
A que fala demais tem gênio encantador,
E a que não abre a boca é o expoente de pudor.
E o amante que do ardor percorre toda a gama,
Da criatura amada até os defeitos ama.

Molière

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JIM MORRISON- POESIA

Posted by Daniel Baseggio em 30/06/2009

JIM

JIM

– Um poeta, uma vida dionisíaca, o homem triste e enfurecido que deixou uma breve marca na terra onde pisou. Sim, Morrison é um rei, o “lagarto rei”.

Sereias

Metabolismo criminal da meia-noite na floresta do crime
Cascavéis assobios castanholas

Tiren-me deste átrio de espelhos
Deste vidro infectado

És ela,
Pareces ela,
Como poderias ser quando nunca ninguém pôde

Poeta do ataque às putas

Ela deixou um recado na porta do quarto
‘Se estiver fora, faz-me vir’.

Passei por tua casa para te ver
ontem a noite já era tarde
Mas tinhas saído,
como uma luz
A tua cabeça estava no chão,
e as ratazanas jogavam bilhar com os teus olhos

A morte é um bom disfarce
para o fim da noite

Ocultando todos os jogos no seu calmo jardim

Mas o que acontece
quando os convidados voltam
e tudo se descobre
e te pedem que saias
por falta de um sorriso

Ainda te aceitarei então
Mas eu sou teu amigo.

– É uma bárbara poesia de um célebre homem, escolhe quando vais chegar, mas nunca quando tendes de partir. Dizia ele: “o importante não é a viagem, mas, sim a chegada”

e assim…um bom dia a todos

Bibliografia: MORRISON, Jim. Abismos- escritos inéditos

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Noites na Taverna I – Solfieri

Posted by Rafa de Souza em 16/06/2009

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Ontem, após um trabalho sobre ética e uma prova sobre política, resolvi continuar com a leitura de Noites na Taverna, de Álvares de Azevedo e comecei o Capítulo II, intitulado “Solfieri”.

Vagando pela cidade de Roma, cujo a personagem descreve como “a cidade do fanatismo e da perdição”, Solfieri avista em uma janela uma jovem que chorava e esta prende sua atenção. Momentos depois a jovem sai de casa e vai para um cemitério onde Solfieri adormece, embriagado,  enquanto observava a jovem chorando em frente à uma lápide,  e quando acordar já não mais vê a moça. a partir desse momento, criar-se-á uma narração onde o sagrado e o profano se misturam, onde o odioso se mistura com o bom, e onde o horrendo se mescla com o belo.

Hverá de encontrá-la um ano depois, em uma igreja, que adentra enquanto voltava de uma orgia. Solfieri entra na igreja (que havia sido esquecida aberta pelo coveiro que dormia em um canto, bêbado.) e lá encontra um caixão, no qual jaz a jovem que seguira até  o cemitério um ano antes. Movido pela visão da jovem, Solfieri comete o mais sordido dos atos, no mais sagrado dos lugares, misturando a morte da moça com a vida. A moça, após consumado o ato, acorda (era cataléptica) mas logo volta a desmaiar. Solfieri a leva para sua casa, onde ela acabaria por morrer,  depois de dois dias de loucura e febre. Lá, no quarto onde a jovem morreu, solfieri constrói seu túmulo e sobre ele se deitaria toda noite, misturando o repouso dos vivos com o repouso dos mortos; e manda um escultor que faça uma estátua da bela jovem para imortalizá-la.

Nessa mistura de embriaguez, amor e morte, torná-se notável, pela necrofilia, pelo choro no cemitério, pelo túmulo sob o leito, e pela imortalidade da estátua sobre o corpo, a vontade de se misturar a vida com a morte e o abominável com o louvável; e torná-se, também notável, neste pequeno conto de cerca de cinco páginas, a grandiosidade da obra de Álvares de Azevedo, que hoje, com certeza, considero como um dos maiores escritores que já li.

Posso dizer que este livro é, já, com certeza, uma recomendação e será uma releitura.

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